quinta-feira, 16 de maio de 2013

Das heroínas



Fotos retiradas daquiThe Scar Project

A respeito da dupla mastectomia preventiva a que a Angelina Jolie se submeteu já li diversas opiniões. E quase todas se situam em extremos. Uns acham um absurdo, porque devemos sempre esperar pelo que a vida nos reserva, além de que este procedimento não evita que ela morra desta doença. Outros acham-na uma heroína, um exemplo para todas as mulheres. Eu não concordo nem com uma opinião nem com outra. Eu, no lugar dela, e, pesando os prós e os contras e, tendo em conta que tem quase noventa por cento de probabilidades de vir a ter cancro da mama, que viu a mãe morrer relativamente nova deste problema e tendo em conta que ela tem acesso aos melhores médicos e aos tratamentos mais eficazes, possivelmente também o faria. Preferiria sujeitar-me a tudo isto (que não deve ser nada fácil), mesmo correndo outros riscos, do que viver uma vida obcecada com o dia em que iria descobrir algo no peito. Mas isso faria de mim uma heroína? Eu acho que não, mesmo sendo esta uma decisão muito difícil e corajosa. Continuo a achar que heroínas são todas as mulheres que sofrem ou sofreram desta doença, que se submeteram a cirurgias radicais e agressivos tratamentos de radioterapia e quimioterapia, com todas as dores físicas e psicológicas que isso implica, e que se viram verdadeiramente mutiladas sem nada poderem fazer para corrigir ou evitar isso.

9 comentários:

Ana C. disse...

Eu penso que ela foi estupidamente corajosa por ter tornado isto público e será aí que poderá residir o tal heroísmo de que falam.
Quanto ao resto, como disse uma amiga minha, com as probabilidades genéticas que possui, ficar com as mamas, isso sim, seria um acto de coragem.
Mas tudo isto são perspectivas e opiniões sobre uma vida que não é a nossa, sobre uns sapatos que não somos nós a calçar. Há apenas que respeitar a vida dos outros e as suas decisões, que não terão sido fáceis com toda a certeza.

xana disse...

É heroína no sentido de ter partilhado com o mundo, apenas para relembrar que devem submeter-se a exames de rotina, e que há sim, pessoas "famosas" que também passam por isso. E bem vi o efeito, na mesma noite a minha mãe disse-me que tinha que ir fazer exames... Como a minha mãe, devem ter havido milhares, se não milhões, de mulheres a relembrarem-se! Além disso, uma mulher que é um ícone de beleza e considerada uma das mulheres mais sexys de sempre vir admitir publicamente que já não tem os dois peitos? É preciso muita coragem... E eu achei que ela teve muito bem em dar aquele testemunho, e em incentivar as mulheres de todo o mundo!! É por isso que a considerei uma heroína, e não pelo procedimento em si :)

sandra disse...

Concordo plenamente. Ela fê-lo, e na minha opinião se isso a faz sentir mais segura acho bem, ainda que não a livre totalmente da hipótese de vir a sofrer de cancro da mama, mas não podemos esquecer que não é qualquer pessoa que pode submeter-se a uma dupla mastectomia e reconstruir as duas mamas num espaço de 2 a 3 meses. Heroínas são as mulheres que se submetem a mastectomia por necessidade que vivem todo o processo da doença ainda que depois venham a reconstruir a mama. Essa vivência ninguém sabe o que é, e não é o facto de tirar as duas mamas e reconstrui-las logo em seguida que a coloca em pé de igualdade com estas mulheres. É uma opção de segurança, mas não é uma realidade para todas as mulheres.

Inês disse...

Não tenho lido muitas opiniões sobre este assunto mas das poucas pessoas com quem comentei sobre esta notícia tu foste realmente a única que disse exactamente aquilo que eu senti quando ouvi essa notícia no telejornal. Como é que uma uma mulher é considerada heroína quando faz uma dupla mastectomia (atenção que acho que ela fez bem, eu provavelmente também o faria), sabendo que tem à sua disponibilidade os melhores especialistas (e dinheiro para tal!), para reconstruir o peito até à perfeição? Heróinas são as Mulheres que superam e não têm o cirurgião plástico para resolver...vivemos mesmo num mundo em que a comunicação nos manipula com migalhas e nós deixamo-nos levar...é triste

mariana teresa disse...

Estou totalmente de acordo contigo.
Na minha família houve casos de cancro da mama a minha avó, e uma prima da minha mãe.
Mas não é por isso que vivo obsecada com isso,faço a meu auto-exame,e como já tenho 32 anos uma eco-mamaria de ano a ano.
Já a minha irmã vivo num constante pânico de vir a ter cancro derivado aos casos que houve na família.
Se tivesse na posição dela tinha muito que ponderar pois fazer o que ela fez é uma decisão muito difícil para uma mulher.

li@ disse...

Não sei porque de todos os dias, hoje foi o dia que me apeteceu deixar um comentário, ainda por cima para discordar. Mas não deixa de me preocupar porque se perde tempo com a questão de avaliar se a Angelina, ou a minha tia, é mais ou menos heroína pela forma como lidou com o cancro ou a possibilidade de vir a ter cancro, se o tratou com radioterapia, quimioterapia ou mastectomia...isto não é um concurso! O facto de ter mais possibilidades económicas para tratar da sua situação mais rapidamente e talvez com melhores resultados faz dela afortunada... não menos heroíca.

Sandra Soares disse...

Eu tenho uma opiniao diferente. Acho que ela tem o direito de fazer o que quiser ao corpo, mas divulga-lo e passar por heroina, ja nao concordo. A monha avo teve cancro da mama e foi submetida a mastectomia. Quando o mesmo aconteceu a minha mae, depois dos primeiros tratamentos de quimioterapia, consultei os melhores especialistas na materia porque queria ver-me livre daquele perigo e sondar a possibilidade de fazer esta cirurgia. O medo.
Resultado: nao so nao a aconselham, porque se tratam apenas de probabilidades e a hereditariedade nao e um fator de grande ponderacao, como so pessoas milionarias a poderiam fazer e apenas nos EUA.
Hoje, e depois de estudar o assunto, penso que amputar um orgao saudavel nao e uma coisa racional. Nada nem ninguem consegue prever o futuro. Comecamos no peito, depois os pulmoes, o figado, o pancreas...
Nao pode ser. Temos que viver o dia presente o melhor possivel e tomar conta de nos, mas e de uma grande arrogancia desafiar o destino desta forma. Todos morremos de alguma coisa, se pudermos adiar melhor, mas vai de certo acontecer. Devemos fazer o que entendermos, mas isso e ca connosco. Ao intitular-mo-nos herois, serao os outros cobardes? Haja bom senso.

violet disse...

É de facto heroína e corajosa. Não menos nem mais do que as mulheres que falas no teu texto. Independentemente da condição social, dinheiro, acesso a melhores médicos, esta não deixa de ser uma das decisões mais difíceis que alguém poderá ter que tomar. E não há dinheiro que compre a saúde. Não podia concordar mais com a aquilo que disse a Li@, isto não é um concurso. Infelizmente é esta a mentalidade mais comum no nosso país... basta alguém ser elogiado de alguma forma, ou com algum "excesso" se querer "puxar para baixo", retirar valor, menosprezar. Não costumo comentar blogs, mas às vezes é impossível não dizer nada.

Isabel Moura disse...

Eu, tal com a actriz Angelina Jolie, tenho uma mutação do Gene BRCA1, com 82% de hipoteses de cancro de colon de de mama. Tal, como nos dizem no IPO, não é se vamos ter e quando vamos ter. Estou neste momento em casa a recuperar da minha Histerectomia Total, demorei 4 anos a tomar a decisão. A proxima será a operação as mamas. Tenho dois filhos, a mais nova tem sete anos. Foi por eles que decidi não correr o risco de morrer de cancro. Penso que antes de falarmos sobre qq assunto, devemos ler sobre o mesmo.
Isabel