segunda-feira, 7 de junho de 2010

O Amor é um Lugar Estranho


Naomi Watts fotografada por Gilles Bensimon

Depois dos trintas anos, com algumas relações falhadas, com tanto divórcio à nossa volta, é difícil ainda acreditar no amor. Sobretudo, porque já não temos os sonhos e a paixão característica dos vinte. Já temos todos bagagens pesadas que muitas vezes não queremos carregar, sobretudo as dos outros (os desgostos dos outros, as feridas emocionais dos outros, os filhos dos outros). Já vivemos muito, o suficiente pelo menos para já não nos surpreendermos com a maior parte das pessoas.

Quem diz que aos trinta já não somos tão exigentes como aos vinte, engana-se. Redondamente. É o oposto. E aqui falo por mim. Sobretudo quando não se está desesperado para arranjar alguém. Sobretudo quando até nem somos uns camafeus daqueles em quem ninguém pega. Sobretudo quando somos independentes e não estamos à espera de mais um para sair de casa dos pais ou para comprar/arrendar casa. Sobretudo quando já aprendemos a viver sozinhos e até gostamos.

Eu neste momento sou a pessoa mais exigente do mundo. Já sofro daqueles tiques parvos que consistem em catalogar os homens. Horrível, eu sei. Mas é mais forte do que eu. Já não me convenço com meia dúzia de prosas. Já não tenho pachorra para os típicos engates. E já prefiro ficar em casa, sozinha com as minhas coisas, a ter de sair com alguns deles. Como um dia disse a Coco Chanel, é para evitar más conversas e mau vinho que passo muitas noites em casa. Eu sou mais ou menos assim.

Se podia arriscar mais? Se podia esforçar-me mais? Se calhar podia. Mas falta-me a motivação para o fazer.

25 comentários:

Capitão Microondas disse...

O problema da maioria das pessoas é exactamente esse: o de colocar em causa a crença no amor em função dos falhanços. O amor não tem absolutamente nada a haver com o sucesso ou insucesso de uma relação. Pode amar-se quem não se tem e ter-se quem não se ama. Arrisco dizer que ambas as situações são o que mais há por aí. Seja como for amor existe e vale a pena, mesmo que não subsista (pelo menos praticado a dois) para sempre. Depois é... ter juízo quando realmente acontece, a dois, com pés e cabeça. E é nisso que mais falhamos. No juízo. Até porque hoje em dia estamos formatados para pensar apenas o "melhor para mim", o que qualquer criatura inteligente sabe ser dicotómico face ao amor. Quem quer o melhor para si dificilmente amará "à campeão". Quem ama de forma saudável sabe que a coisa não tem nada a haver com o sucesso do princípio individualista do "melhor para mim".

Teresa Carvalho disse...

È tão verdade o que escreveste e tão poucos percebem ou entendem uma verdade para mim tão simples! Parabéns pelo blog, tornou-se um hábito diário a sua consulta.

CF disse...

Entendo todas as palavras. Embora a minha história seja outra, já com um divórcio e um filho. Tirando isso, sou exactamente assim...

prada disse...

Á medida que se avança na idade o grau de exigência é maior, a não ser que se entre numa de desespero, do tipo " é agora ou nunca".
Por aquilo que conheço, não costuma dar bom resultado!!!
O velho ditado "quem casa não pensa , quem pensa não casa" mantem-se actual.
Apesar de tudo acho que não se deve desistir, é o que penso!!!

Olá Amor disse...

Miss Kitty fane, é bem verdade isso que diz! De qualquer forma acho que tudo isso é passível de ser ultrapassado se e quando aparecer alguém que seja realmente interessante. E o interesse não está nas prosas que referiu, porque quando estamos de bem com a vida, não vai lá com prosas nem cantigas. Há dias em que me sinto assim também, com pouca vontade de sair, de agir, mas depois penso que também tenho de andar uns passos fora da rotina normal e aproveitar o bom que é socializar e aprender algo com o contacto directo com as outras pessoas. Não se pode ficar fechado em casa à espera que a motivação apareça por si só! E isto é válido para uma série de coisas. Mas também acredito que um dia destes o click da motivação aparecerá! Porque o "amor é um lugar estranho" realmente, mas há coisas que o são bem mais e nós convivemos com elas bem mais facilmente!

cabana disse...

Hoje,tu deixas escorrer assim as tuas manhãs e tardes,amanhã,tu terás outros cânticos,com ou sem alardes.Bjosss...
http://barthes-fragmentos.blogspot.com

Paulo Nunes disse...

Será que estás à procura nos sitios certos? será que estás a ser demasiado exigente? claro que sim!
Não estou a dizer que ficares com o 1º que te aparecer pela frente... mas conheço tanta gente que pensa assim como tu... mas lá no fundo....gostariam de estar com uma pessoa. Mas depois.. começam a pensar...ai.. tenho que partilhar isto... ai tenho que aturar as manias etc etc" e desistem logo.
Ninguém é perfeito... mas também não podemos ser muito selectivos! mas... mais vale sozinhas que mal acompanhadas certo? :P

Conde disse...

Compreendo. Não é á toa que surgem por aqui esses "corta-interesses" e "atiça-interesses" tão castradores, afinal,são coerentes com esse estado de espirito.

siceramente disse...

Mas no amor se caíres 100 vezes terás de te levantar de novo para a 101 queda! Desistir é que não :P

michael disse...

percebo :)
e aquele carimbo a dizer 'damaged good' que só se vê quando as luzes fluorescentes nos encostam a alguém também não ajuda nada por vezes...
e as casas também mudam, mas haverá sempre (ou muitas vezes) a sensação de solo sagrado onde nos sentimos bem, com quem queremos estar, quando queremos estar

Destination disse...

Partilho totalmente do teu estado de espírito! Quando atingimos uma determinada fase da vida,com qualidade, independencia,serenidade,é muito difícil trocar esta estabilidade por aventuras. Tem de valer mesmo a pena e essa pessoa tem de acrescentar algo de positivo. A mudar,apenas para melhor,para algo mais perfeito, mais completo, mais feliz. Ora mas é nesta etapa da vida que encontrar essa peça do puzzle é já quase impossível...ou assim pensamos nós, e vamos perdendo a motivação!

Alexandra disse...

Não sei se estou mais exigente aos 30 do que aos 20. O que procuro numa pessoa é exactamente o mesmo..que me diga algo...que estejamos na mesma equidade vibracional. Não estou à espera de encontrar alguém perfeito (nem quero!!).

[Um à parte]
Este fim de semana, aconteceu-me algo estranho. Senti a tal equidade vibracional com um estranho que estava no IKEA de Matosinhos a cortar tecidos à minha frente (eu também estava a cortar tecidos). Já em casa, dei por mim a pensar naquela pessoa. Como encontrar uma pessoa que se viu uma vez e de quem não se sabe absolutamente nada. Pesquisei na internet algum site adequado a esta situação, em que se deixasse uma mensagem e a outra pessoa se estivesse na mesma onda fosse procurar também...não encontrei nada. Depois lembrei-me do teu blog...de um post em que tentaste juntar pessoas. Que tal uma aplicação no teu blog para encontrar pessoas que só se viram uma vez? É uma ideia.

Achei estranho não existir um site com esta finalidade, uma vez que isto já deve ter acontecido a milhares de pessoas!!

Acredito que a maioria das coisas acontece por uma razão, quase sempre desconhecida, coisas boas ou menos boas, que nos ensinam sempre alguma coisa, mesmo que na altura pareça que não. Mas depois quando olhamos para elas de uma forma global, fez todo o sentido existirem. Penso que a finalidade de tudo isto é sempre a aprendizagem de alguma coisa, que enriqueça a alma.

Um beijinho
Alexandra

Silvia disse...

O que importa é que estejamos saudávelmente sós e para isso é necessário que tenhamos numa boa dose de auto-estima para não embarcarmos em coisas que no fim só nos fazem mal. É necessária uma grande dose de equilibrio e independência até para não irmos nas conversas dos amigos(as) que querem a todo o custo ver-nos com alguém e fazem inclusive grandes arranjinhos para que isso aconteça. Forçar a coisa não é solução. Façamos as coisas quando estamos preparados para elas. Caso contrário o resultado será sempre o mesmo. Quando chegamos ao ponto em que estamos bem connosco nesse aspecto, de certa forma estamos também mais aptos a reconhecer e a viver um amor também ele saudável. Que estamos todos mal amados já todos sabemos mas também sei que desta forma talvez tenhamos hipótese de encontrar um amor que não seja "sofrido" para que possamos colher (os dois) os frutos do mesmo. Porque para dramas já basta, não?

Doramar disse...

Concordo inteiramente com o Capitão Microondas.
E acrescento, esperei muito mas nunca pus em causa a crença no amor e sempre acreditei que "aquela" pessoa um dia apareceria (independentemente de me ter apaixonado e amado outras pessoas). Acho que isto é mesmo fundamental: acreditar sempre. É isso que cria a energia para que as coisas se materializem. E o que eu pensava era: se ainda não aconteceu é porque ambos ainda temos que passar/vivenciar outras coisas até estarmos preparados para nos recebermos.
E uma das coisas fundamentais é exactamente aprender a olhar a relação a dois, em partilha e comunhão. O "eu" egóico, de auto-afirmação, estraga tudo.

Paty Michele disse...

Show, Fane, show!

Martini Bianco disse...

Um post coexistial.

Gostei e revejo-me em alguns dos pontos que mencionaste, especialmente no que toca à exigência, embora creio que a maioria das pessoas com o avançar da idade acaba por fazer o oposto, por variadíssimas razões. As mulheres mais por causa da biologia, os homens mais por causa da desorientação/solidão.

Mary disse...

Querida Kitty Fane, foi precisamente na altura em que me senti assim, cada vez mais exigente e desiludida (e quando deixei de me esforçar), que tudo aconteceu na minha vida.

É um pouco como aquelas mulheres que, quando finalmente desistem de engravidar, engravidam - e de gémeos!

Bjs de uma mulher que encontrou o amor pouco depois dos 30 e que continua as happy as back then.

Precis Almana disse...

Sinto imenso do que tu dizes. Mas também concordo com o Capitão Microondas.
Acima de tudo, sabes? Já deixei de verbalizar e pensar muito sobre o assunto. Não vale a pena, é deixar correr. O que quer que tenha de acontecer, acontece, a vida é curta. E o que não tiver que acontecer, também.

Claudia disse...

concordo completamente... sem tirar nem pôr! :)

Precis Almana disse...

Ah, e acabaste por me inspirar para um postezito de nada.

Belinha disse...

Eu não diria melhor....estas palavras parecem saidas da minha boca...aos trinta somos bem mais exigentes e ainda bem....até porque como diz um grande amigo meu "já tenho trinta não faço fretes...só o que me apetece"...in first place há que agradar a nós próprios...

ordep disse...

Eu acho que toda a gente gosta mais de estar acompanhada. É muito triste chegar a casa e não ter ninguém com quem desabafar, seja para comentar o que se passou no emprego, seja para relatar qualquer qualquer peripécia do dia- a-dia, seja para comentar uma notícia.
Claro que todos nós somos um pouco comodistas e egoístas e acabamos por construir o nosso mundo, que não queremos que violem. Mas isso está errado, temos de fazer concessões, partilhar.
A vida é feita de amores e desamores, de alegrias e tristezas.

R* disse...

Compreendo perfeitamente.Tenho pouco mais que vinte e considero-me uma desiludida a quem já nada surpreende e para um homem me surpreender é preciso muito. Mas as saudades de estar apaixonada são muitas.

João disse...

Acho que sim, que com idade se fica mesmo mais "esquisito/a".
Pá concordo muito com o que escreves e dizes o que penso/ acho.

Educação Especial disse...

Kitty, estou completamente de acordo contigo!
Enquanto "espero" que o príncipe-real me encante com o seu lado solar e lunar, aproveito para viver a minha vida com tudo o que tenho direito :)
Better alone that in a boring company ;)